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O presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente chinês, Xi Jinping, defendem um modelo de capitalismo autoritário (chamam-no de “desenvolvimento com a cara de um ditador”). Mas o que nenhum destes lideres parece ter previsto é que ambos os sectores comerciais estão a tornar-se umas verdadeiras forças políticas por si só, em que, cada vez mais, pressionam na elaboração de políticas e de estratégias.

Nas últimas duas décadas, as multinacionais russas e chinesas - muitas delas inundadas de dinheiro - tornaram-se poderosas ferramentas da política externa para os respectivos regimes. Já foram vistas como forças modernizadoras que ajudariam a abrir negócios e a sociedade, em que os ‘gigantes’ da energia, como a Gazprom e a Rosneft, prometem valores comerciais para a Rússia atrasada e para os recém-independentes ex-Estados soviéticos. Anatoly Chubais, um arquicteto-chave do programa de privatização da Rússia, elogiou essas empresas como a “vanguarda de um novo império liberal”. E se essas empresas se estiverem ligadas às ex-repúblicas soviéticas, mais próximas da Rússia, tanto melhor.

Da mesma maneira, na China, durante as presidências de Jiang Zemin (1993-2003) e Hu Jintao (2003-2013), a ascensão de bancos, como o Banco Industrial e Comercial da China e o Banco Agrícola da China, e de empresas de energia e indústria pesada, como a Sinopec, a Sinochem e a China Railway Construction Corporation, era vista como sendo um arauto da modernização. Com altos executivos, muitas vezes, chegados de pára-quedas directamente da sala de reuniões dos gabinetes políticos, as mega-corporações chinesas, há muito, representam uma fusão entre empresas e o Estado.

Além disso, assim como a Gazprom, a Rosneft e as ‘gigantes’ chinesas de tecnologia, ZTE e Huawei, tornaram-se mais essenciais para os respectivos governos, os negócios e os interesses do Estado, também se tranformaram em empresas ainda mais difíceis de serem desembrulhadas. No interesse dos seus ‘campeões nacionais’, os governos russo e chinês parecem seguir políticas que, de outra forma, poderiam ter optado por outros caminhos.

Essa dinâmica está claramente visível na Venezuela. Para a filiação com o monopólio estatal de petróleo da Venezuela, a Petróleos de Venezuela (PDVSA), a Rosneft investiu mais de 17 mil milhões de dólares em empréstimos ao regime ‘chavista’ na última década. Enquanto isso, a Rosneft recebeu três milhões de toneladas de petróleo , em 2017, vindo da Venezuela; de uma forma mais geral, a Rússia investiu em muitas indústrias venezuelanas, do sector bancário à montagem de autocarros. Ao mesmo tempo, a Venezuela tem sido um dos maiores compradores de armas russas entre os países da América Latina.

Devido a essas dívidas e outros laços económicos, Putin não tem outra escolha a não ser apoiar o regime venezuelano de Nicolás Maduro, mesmo com o declínio do apoio público à Rússia para intervenções estrangeiras do Kremlin. Os interesses da Rosneft na Venezuela são simplesmente muito profundos para que os russos se retirem, especialmente agora que as sanções do Ocidente enfraqueceram a capacidade da empresa em garantir financiamento nos mercados internacionais. O apoio da Rússia a Maduro não chega ao nível dos compromissos que tem com a Síria, onde o relacionamento com a família Assad tem décadas. Em vez disso, a ligação com a Venezuela reflecte um cálculo de negócios frio e difícil. Segundo a Reuters, empresas de segurança privada, com laços estreitos com o Kremlin, foram enviadas para defender Maduro. Ao mesmo tempo, houve relatos não verificados (mas plausíveis) de aviões russos que partiram da Venezuela com remessas de ouro, como pagamento pelas dívidas do país. Putin sabe que, se o presidente da Assembléia Nacional, Juan Guaidó, assumir o poder, aqueles que estiveram com Maduro provavelmente serão expulsos e o acesso privilegiado da Rússia aos campos de petróleo da Venezuela será revogado. Em termos financeiros, a queda de Maduro pode significar prejuízos ainda maiores para a China, que tem investimentos na Venezuela estimados em cerca de mil milhões de dólares - pelo menos três vezes mais dos que os da Rússia. Tal como a Rússia, a China deitou-se com o regime venezuelano nos anos 2000, quando o país estava a florescer sob o governo do ex-presidente Hugo Chávez. Embora para a China tenha sido fonte extremamente necessária de petróleo porque era uma economia que estava em rápido crescimento, Chávez conseguiu reduzir a dependência da Venezuela em relação aos EUA, como um dos seus principais mercados de exportação. Enquanto isso, os ‘gigantes’ da tecnologia chinesa ajudaram o regime de Maduro nos seus esforços de vigilância doméstica e (como a Rússia) a China vendeu armas caras a Caracas.

Ainda assim, se Maduro cair, a China pode ficar menos exposta do que a Rússia. Os chineses têm tido o cuidado de cultivar contactos entre vários elementos da sociedade venezuelana, incluindo a oposição. Enquanto a China ainda apoia oficialmente Maduro, evita também seguir a Rússia acusando os EUA de uma tentativa de golpe.

Isso significa que a China quer evitar tomadas de posição radicais idênticas às da Rússia. O Kremlin compete activamente com os EUA para influenciar os acontecimentos na Venezuela e descreveu a tentativa dos EUA de fornecer ajuda humanitária, através da fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, como uma artimanha para vender armas à oposição.

O comportamento moderado da China deve-se, sem dúvida, às negociações comerciais com os EUA. Antes de estender o prazo, quando impôs tarifas mais altas às importações chinesas, o presidente dos EUA, Donald Trump, indicou que a Huawei e a ZTE poderiam ser incluídas num acordo final de comércio sino-americano. Isso certamente agradaria a Xi, cujo principal interesse é proteger o poder económico de ambas as empresas.

Com a capacidade de impedir que empresas norte-americanas vendam insumos cruciais para empresas chinesas, a administração Trump pode causar sérios danos tanto à ZTE quanto à Huawei. A Huawei já é acusada de conspirar na tentativa de violar as sanções dos EUA ao Irão, o que levou à prisão do seu director financeiro, Meng Wanzhou, no Canadá, em Dezembro. E a ZTE declarou-se culpada por acusações semelhantes, pagando multas de 1,4 mil milhões de dólares, em 2017.

No final, a Venezuela não se pode segurar apenas com a importância estratégica dos dois países. Para o Kremlin, o cálculo é o mesmo: as prerrogativas dos negócios definem o interesse nacional. Mas, talvez para desgosto de Putin, na Venezuela esse cálculo está a produzir um resultado oposto.

 

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