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João Lourenço e Marcelo Rebelo de Sousa colocaram acento na hipótese de concretização de uma verdadeira parceria estratégica entre Angola e Portugal. Mas, antes de quaisquer considerações sobre o futuro, é preciso lembrar que essa possibilidade não é nova. Em 2009, foi pela primeira vez anunciado o que seria a marcação de um passo concreto, que simbolizasse a relação estratégica. José Eduardo dos Santos foi a Lisboa e, em cima da mesa, estava a proposta de criação de um banco luso-angolano de capitais divididos em partes iguais. Angola far-se-ia representar pela Sonangol, Portugal pela Caixa Geral de Depósitos e cada um teria de injectar metade dos mil milhões de dólares estabelecidos, na altura, para a constituição do banco. Quando Aníbal Cavaco Silva decidiu retribuir a visita no ano seguinte, isto em 2010, o compromisso foi renovado, em Luanda, com uma agenda aparentemente mais concreta. No entanto, após o regresso de Cavaco Silva a Portugal, nunca mais se ouviu falar do projecto, muito menos saíram explicações sobre o que estaria na base do evidente recuo. A vontade de avanço para uma parceria estratégica voltaria a confinar-se aos discursos, até que os “irritantes” processos da justiça portuguesa contra figuras angolanas colocaram até muito recentemente a hipótese de ruptura.

Essa base histórica, ainda que se apregoe hoje dos dois lados um novo paradigma relacional, não pode ser esquecida, porque as suas raízes potenciam a probabilidade elevada de novos “irritantes” no futuro. É preciso mencionar que, pelo menos desde o fim da guerra em Angola, a tensão governamental entre os dois países nunca chegou a colocar uma hipótese real de ruptura, tal como João Lourenço a colocou, ao defender Manuel Vicente. Até José Eduardo dos Santos o máximo que fez, nos momentos derradeiros do seu mandato, foi afastar Portugal dos parceiros preferenciais, mas esta ameaça jamais configurou uma possibilidade credível de rompimento.

Por isso, ao contrário do que diz Marcelo Rebelo de Sousa, os “irritantes do passado” são para ter em conta, porque servirão sempre de alerta para a construção dos “importantes do futuro”.

 

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