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Como todos os poderes políticos longevos, a liderança de José Eduardo dos Santos gerou um legado controverso. É indiscutível a ausência de consenso quanto aos resultados dos 38 anos de governação do ex-Presidente da República e do agora também ex-presidente do MPLA. Analisados de forma fria, os argumentos esclarecidos dos críticos e dos defensores são compreensíveis. Mas, como já o dissemos vezes sem conta, se o critério de avaliação do consulado de José Eduardo dos Santos se basear na necessária comparação entre erros e acertos, o saldo é-lhe largamente favorável.

Para isso, é preciso, em parte, dimensionar, com ciência, o impacto dos seus fracassos e das suas realizações mais relevantes. E esse exercício não pode ser rigoroso se não levar em conta as circunstâncias e os condicionalismos que afectaram cada momento, cada decisão do seu consulado. Numa só frase, José Eduardo dos Santos deve ser avaliado obrigatoriamente no seu tempo.

Do lado negro, surge sobretudo a incapacidade de José Eduardo dos Santos de conter a corrupção generalizada e o saque ao erário que, do dia para a noite, criaram centenas de fortunas ilícitas.

Do outro, começa por se destacar a sua realização mais importante, o alcance da paz com a derrota da UNITA guerrilheira. José Eduardo dos Santos conquistou, na verdade, a segunda Independência Nacional. Por isso, apesar da concepção pejorativa que muitos dos seus críticos encontram na homenagem que lhe atribui a engenharia da pacificação do país, o tributo é-lhe mais do que merecido. Tal como Agostinho Neto ficou imortalizado como o ‘herói dos heróis’, José Eduardo dos Santos ficará imortalizado como o ‘Arquitecto da Paz’. Goste-se dele ou não.

No pós-guerra, o segundo feito de vulto, derivado do primeiro, é inquestionavelmente a sensatez com que geriu o processo de reconciliação nacional. O país tinha tudo para entrar imediatamente num mundo institucionalizado de caça às bruxas e isso só não ocorreu por vontade expressa de José Eduardo dos Santos. Finalmente, não pode ser ignorado o exemplo de transição política, nos termos como a concebeu. O continente africano está repleto de líderes que optaram por esticar a corda até ao limite. O ex-Presidente poderia fazê-lo se quisesse, sem pensar em quaisquer hipotéticas consequências, como o têm feito muitos dos seus pares africanos. Mas, apesar de toda a pressão cruzada com interesses diversos, resistiu aos que o aconselharam a manter-se no poder e desistiu de concorrer a um mandado legítimo na chefia do Estado. No último fim-de-semana, abriu mão do partido no primeiro terço do mandato, permitindo uma transição completa, com um novo homem no comando. Feitas as contas, qualquer calculadora básica sem avarias não se enganará no resultado: como não existe presente sem história, até a proclamação da Angola da Era João Lourenço está inseparavelmente ligada às decisões que José Eduardo dos Santos tomou nos últimos anos da sua vida política. Porque o continente berço até hoje nos ensinou uma lição irrecusável: em processos de transição em África há sempre caminhos alternativos.

 

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