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Na política, tal como no jornalismo, entre os critérios cruciais de idoneidade, exige-se legitimidade histórica e identitária. É uma regra universal não escrita, embora não raras vezes encontre suporte em leis redigidas. Em Angola, por exemplo, a posição de director-geral de jornais é uma prerrogativa exclusiva de angolanos. E, entre as várias razões não formuladas, deduzem-se as relacionadas com a ‘soberania’ da informação, o que implicitamente arrola a legitimidade histórica e identitária.

Será também por isso, aliás, que, de forma extensiva, consciente ou inconscientemente, a classe jornalística estrebucha em surdina sempre que ocorre uma ‘invasão’ das redacções angolanas por jornalistas estrangeiros. Ao mesmo tempo que não se incomoda se a mesma irrupção acontece, por exemplo, na banca, apesar de, em muitos casos, o racional por detrás do recurso ao estrangeiro ser o mesmo: a insuficiência de quadros nacionais verdadeiramente capazes.

Na política, mais do que no jornalismo, o quesito da legitimidade histórica e identitária é ainda mais decisivo quanto fracturante. Tão problemático ao ponto de ser comum provocar derivações incómodas que, na prática, colocam cidadãos da mesma pátria com direitos fundamentais diferenciados. Nos Estados Unidos, por exemplo, a chegada de um negro a presidente da República só deixou de ser um sonho para a humanidade após a confirmação do milagre de Obama. Em Angola, ainda que em surdina, comenta-se o mesmo em relação às possibilidades que um cidadão não negro teria de chegar a Presidente da República. A explicação afinal é a mesma: erradamente, as maiorias conservam no subconsciente a convicção de que são mais legítimos do que os outros.

Mas esse ponto de convergência entre o jornalismo e a política não é necessariamente a mesma ponte que liga a política aos negócios estratégicos do Estado. Entre outras possibilidades, o que há de comum entre a política e os negócios do Estado é a necessidade de decisões impopulares, sempre que estas se revelem necessárias. Isabel dos Santos, até prova em contrário, foi incompreendida nesta matéria. Mas percebe-se o porquê.

A generalidade da crítica contra as escolhas estrangeiras de Isabel dos Santos para o conselho de administração da Sonangol centra-se na nacionalidade dos gestores, perde-se na narrativa da soberania e ignora a discussão fundamental: a viabilização da empresa. Ninguém, até ao momento, derrotou convictamente o argumento principal de Isabel, centrado na competência dos escolhidos e na convicção pessoal da gestora de que, com tal equipa, deverá apresentar melhores resultados. O que está em causa, portanto, não é o desprezo às sensibilidades patrióticas. É a relativização da legitimidade identitária na gestão de uma empresa, cuja saúde é vital para a estabilidade do Estado.

Numa escala diferente, o caso Sonangol lembra, em certa medida, a fulgurante passagem do britânico Peter Hill pela TAAG. Em contextos especiais, há que escolher entre a ‘soberania moribunda’ e a ‘invasão libertadora’. Por isso, sobre este particular, Isabel dos Santos só poderá ser verdadeiramente julgada quando tiver de apresentar as contas finais. Até lá, continuaremos a conversar.

 

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