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MICROCRÉDITO. Empresários querem equilíbrio no crédito entre Estado, empresas e famílias. E sugerem caminhos, que incluem redução das despesas públicas e maior controle orçamental. Só no quarto trimestre de 2017, Estado captou 262,4 mil milhões kzs em títulos públicos, três vezes mais que os privados no crédito tradicional. Juro alto inibe novos empréstimos.

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A normalização do crédito ao sector privado – empresas e as famílias – só deve acontecer com o Estado a fazer menos recurso à banca comercial, estratégia que deve integrar um ‘cabaz’ de medidas com três desafios, nomeadamente o ajuste das contas externas, das contas públicas e o equilíbrio macroeconómico.

Para isso, é esperado um corte “agressivo” das despesas públicas, com o Estado a controlar mais o orçamento, a contrair menos dívidas, ou com encargos que promovam crescimento económico. Só com isso se pode esperar que os bancos reduzam as taxas de juros e demais condições para novos desembolsos, dando lugar a um modelo que inclua as famílias e empresas na planificação do crédito. Esta estratégia de reversão da situação actual do crédito foi ensaiada pelos associados da AEL, associação que reúne empresários de Luanda, analistas independentes e um escritório de consultores financeiros, a GB-Consultores Reunidos, ao VALOR.

Até ao quarto trimestre do ano passado, o Estado captou, através de emissão de títulos públicos, 262.442,8 milhões de kwanzas (1,5 mil milhões USD), resultantes de 969 negociações na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).

O sector privado, por seu turno, encaixou 51.759 milhões de kwanzas em crédito até Agosto último, três vezes menos do que o Estado recebeu dos bancos só em emissão de títulos, de acordo com os dados preliminares das estatísticas monetárias do banco central.

Para os bancos, a restrição do crédito ou reforço das condições para empréstimos a privados associado ao elevado nível de crédito malparado. Ou seja, as famílias e empresas, por degradação das condições económicas, não cumprem dentro dos prazos o reembolso a que se comprometem, além de outros riscos associados.

Segundo o Banco Nacional de Angola (BNA), que olha com “preocupação” a qualidade dos activos creditícios, o rácio de crédito malparado mais que duplicou, nos últimos três anos, passando de 11% em Dezembro de 2015 para cerca de 26% em Junho do ano corrente.

“Este aumento das dificuldades de reembolso dos empréstimos por parte das famílias e empresas, é mais sentido nos sectores do comércio, construção e actividade imobiliária, reflexo do ritmo de crescimento da economia nos anos mais recentes”, atesta o banco central, através do seu governador José Massano, quando discursava recentemente na 13.ª edição do ‘Banca em Análise’, da Deloitte.

Já Galvão Branco, dono da GB-Consultores, lembra que o dinheiro que os bancos colocam no crédito provem das poupanças dos depositantes e que o seu repasse obedece a termos acordados.

“Significa dizer que a facilitação do crédito bancário tem de necessariamente estar sujeita a processos de avaliação de risco, que garantam que os termos da sua contratualização sejam cumpridos, sobretudo em matéria do pagamento dos juros e prazos de reembolso”, explica.

Menos para Estado…

Prejudicado pelo actual quadro macroeconómico nacional, o poder de financeiro e de restituição dos fundos de crédito bancários pode ser desenvolvido, segundo o economista Yuri Quixina, com a redução da presença do Estado nos bancos comerciais, sobretudo na captação de fundos.

“Se o Estado for pouco aos mercados (e sabemos que os bancos fazem lucros através do crédito), a taxa de juro automaticamente vai cair, porque é um ‘grande’ que procurava o crédito. O Estado é que tem de se organizar”, considera este analista, para quem é urgente a correcção do desequilíbrio das contas públicas.

“Pelos menos temos de organizar um dos principais desequilíbrios que tem influenciado noutros desequilíbrios, que é as contas públicas. Se [o Estado] organizar as contas públicas, que está naturalmente desequilibrada grosseiramente, vamos ver que a macroeconomia vai encaixar, porque organizar é cortar nas despesas”, sublinha.

Cortando nas despesas, observa Quixina, o Estado liberta as partes que não conseguia levar a cabo e repassa ao sector privado. A isso, “vai influenciar que caia a taxa de juros; vai influenciar que impostos reduzam, porque o Estado não terá muitas despesas. E isso vai influenciar com que as empresas e famílias tenham maior espaço de manobra para crescerem”, defende.

Mais para empresas

Também Francisco Viana, presidente da AEL, considera o controle orçamental como medida de ajuste à situação do crédito ao sector privado. Para ele, as despesas públicas têm de ser aplicadas em investimentos que gera§m vantagens.

“O banco [comercial] não tem nada a ver com isso. Quem tem de resolver o problema é o Governo. Tem de deixar de gastar onde não deve e tem que investir onde deve. O Governo está a sustentar uma dívida insustentável, que não foi feita pelo cidadão; uma dívida com a qual pagamos estradas que já nem existem”, critica o líder associativo.

 

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