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Prue Clarke

Prue Clarke

Ajuda estrangeira incita o problema da comunicação social africana

Numa recente conferência de imprensa, um pequeno grupo de jornalistas da Libéria fez uma corajosa conssão: os jornalistas admitiram que estavam todos a “aceitar subornos”. Para complementarem os salários baixos, que podem chegar aos 40 dólares por mês, os jornalistas revelaram que, muitas vezes, dependem de pagamentos das próprias pessoas sobre as quais escrevem. A revelação confirmou um segredo indecente do jornalismo africano: os repórteres ganham a maior parte do seu rendimento através de pagamentos provenientes das fontes. E o segredo mais indecente de todos é que a comunidade de ajuda internacional está entre os pagadores mais prolíficos.

As agências de desenvolvimento desembolsam vastas quantias para influenciar os jornalistas africanos. Embora o suborno descarado seja raro, o pagamento insidioso é generalizado. Muitos esquemas - desde reembolsos de ‘transporte’ que excedem, em muito, os custos de viagem dos repórteres, até ajudas de custo exorbitantes - vêm com um entendimento tácito de que a cobertura será positiva. Os grupos de ajuda insistem que os pagamentos não são incentivos. Na realidade, os jornalistas mal remunerados têm di- culdade em distinguir a diferença.

Para os patrões dos meios de comunicação social, o suborno racionaliza os custos: enquanto publicarem, as fontes pagarão a factura. Embora seja difícil saber qual é a percentagem dos orçamentos dos meios de comunicação social que deriva de pagamentos anti-éticos, na Libéria, onde faço a maior parte do meu trabalho, as evidências anedóticas sugerem que é a maioria dos pagamentos dos repórteres. Por exemplo, duas empresas líderes de comunicação social armaram não pagarem aos seus funcionários durante pelo menos um ano, mas continuam a publicar sem nenhuma mudança perceptível na produção.

As implicações deste modelo de negócio jornalístico são profundas. Para começar, as histórias são normalmente mal escritas, baseadas numa única fonte e movidas por uma conferência de imprensa ou comunicado de imprensa, em vez de uma avaliação completa e objectiva das questões que afectam os leitores. O jornalismo, como carreira, também está degradado e a maioria dos universitários evita totalmente a profissão.

Ironicamente, os esforços das agências de ajuda para melhorar a comunicação social africana só exacerbaram o problema. Isso porque, hoje, um típico jornalista em África é um participante profissional de ‘workshops’. As ONG de todos os sectores ‘dão formação’ aos jornalistas nas suas temáticas, muitas vezes com conteúdos idealizados nas capitais ocidentais por pessoas sem experiência em jornalismo ou nos países visados. Os jornalistas andam de ‘workshop’ em ‘workshop’, comparecendo o tempo suciente para reunir as suas matérias e escrever um trecho rápido.

Esta abordagem tem tanto de dispendiosa quanto de lamentável. Num país africano, uma organização de desenvolvimento de comunicação social com a qual trabalhei gastou mais de um milhão de dólares, do dinheiro dos contribuintes, para produzir um programa de uma hora sobre governação, que foi então transmitido na rádio comunitária. O seu conteúdo foi de tal forma higienizado para apaziguar as autoridades locais que poucas pessoas sintonizaram o canal. Mas ainda mais problemática foi a distorção do mercado dos meios de comunicação social nacional. Para produzir o programa, a ONG recrutou dez dos melhores jornalistas de meios de comunicação social estabelecidos e pagou-lhes até dez vezes os seus salários normais. Quando o projecto terminou, a maioria dos jornalistas deixou os seus antigos empregos à procura de melhores salários nos sectores humanitários e governamentais.

A maioria dos jornalistas africanos sabe como relatar uma história com fontes credíveis. O que lhes falta são os recursos para aplicarem esse conhecimento. As irregularidades na comunicação social africana são idealmente tratadas como um desao de negócios e não como um problema de formação.

Algumas organizações de comunicação social já reconhecem isso. No Gana, o dono da Joy FM, Kwasi Twum, disse-me que paga aos seus empregados o “suficiente para um carro e uma hipoteca” e a estação tem sido amplamente reconhecida por ajudar a elevar o padrão de jornalismo no país. No passado, o jornalista nigeriano Dele Olojede atraiu os melhores licenciados em administração, medicina e direito para a profissão com salários mais elevados e uma missão inspiradora. Em 2011, os jornalistas, que ele orientou, fundaram o Premium Times, que ganhou a reputação de vigilante político imparcial. O Front Page Afric, da Libéria, tem desempenhado um papel semelhante, bem como o Daily Maveric, na África do Sul.

Para progredirem ainda mais, os meios de comunicação social africanos deveriam emular as suas contrapartes nas economias avançadas, desenvolvendo fluxos de receitas sustentáveis através do comércio electrónico, subscrições, conteúdos patrocinados, suplementos e multimédia. É aqui que os doadores podem ser úteis: em vez de organizarem formações inúteis, devem permitir a inovação ao unirem meios de comunicação social africanos com especialistas em negócios, tecnologia e publicidade. Em particular, as empresas de tecnologia deveriam ajudar as organizações de comunicação social a tirar partido das inovações das plataformas e encontrar oportunidades de rentabilizar os públicos da diáspora.

Os doadores já demonstraram que podem procurar prioridades de desenvolvimento ao mesmo tempo que fazem investimentos inteligentes na comunicação social. A Fundação Bill & Melinda Gates, por exemplo, financia informações relacionadas com a saúde no Mail & Guardian da África do Sul e no Premium Times. A ajuda também tem sido fundamental para sustentar a organização que lidero, a New Narratives, que usa o financiamento de governos e fundações para apoiar a comunicação social local independente. As informações que apoiamos ajudaram a promover a proibição da mutilação genital feminina e revelaram inúmeros casos de corrupção e má gestão.

Tal como estes e outros esforços demonstram, apoiar a comunicação social independente está entre os investimentos mais importantes que os doadores podem fazer no futuro de África. Mas o apoio nunca deve vir com cordelinhos anexados. Para construírem comunidades fortes, os africanos precisam de notícias nas quais possam confiar. Para transmiti-las, os jornalistas precisam de conseguir o seu financiamento honestamente.

 

*Directora executive e co-fundadora do New Narratives, uma organização não governamental, sem fins lucrativos, de apoio ao jornalismo independente em África

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